quinta-feira, 10 de junho de 2010

Good night, dear.

Queria dizer que morro dormindo. Negam-me tal sorte.
Durmo morrendo, hoje.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dê mais, de mais, demais.

Descascar, desmantelar, derreter, repetir.
Desmentir, despedir, e pedir.
Remeter, desmedida fome de reter.
Diz mantê-la, diz manter lá.
Diz mentir, diz cansar,
descansar.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

"Oh, gravity! Thou art a heartless bitch!"

Era uma vez um asteróide.
Era uma mesma vez, um pequenino e belo planetinha, que atraiu esse asteróide para sua órbita.
O asteróide frio ficou quente.
O asteróide sem graça virou um belo meteoro flamejante.
O asteróide solitário ganhou uma bela companhia.
O asteróide que vagava perdido, ganhou um rumo a seguir.
O asteróide esqueceu que o planetóide o estava puxando pra baixo.
Era uma vez um asteróide.

Fim.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Escrevam em meu túmulo.

Parecia fácil entender e, portanto, dava seu parecer. Favorável. É apenas um susto, ele vai viver.

Nem tudo que parece, entretanto, é, e horas depois, como carne de açougue, atiravam o corpo, gélido, sobre a mesa. Não havia sinais de lacerações, não encontravam marcas ou vestígios que entregassem a razão.

Perguntasse um forasteiro aos passantes, diriam que morrera de amores. Perguntassem a seus amigos, morrera da falta de um. Haveria até aqueles que suspeitariam da morte dada por ser amado pela metade. O coração, de forma discreta, discordava de todas as opostas suposições, intacto.

Em seu túmulo, a seguinte inscrição: morreu por amor.
E todos, cada qual a seu modo, entenderam.


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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Afago

Ainda leio conto de fadas, ainda creio nas pessoas.
Ainda sabendo das más, vivo e busco pelas boas.

Ainda é legal querer, te quero.
Ainda estou por perto, te amo.
Ainda sem mistério, ainda de graça.
Ainda falo sério, ainda chamo àquela praça.

Ainda cedo são todas as horas.
Ainda que tarde ser toda, há hora.

Ainda peço que viver o hoje seja um dia saudade.
Ainda quero alguém pra me salvar do mal da idade.
Ainda passo dos quarenta, quem sabe... cê tenta?

Ainda corro, ainda espero, ainda quero.
Ainda indo.


Ainda que viver o hoje, seja em dia saudade, peço à noite que me traga a face.
Peço à face que me traz à face o sorriso, que me traga à noite. Que me trague esta noite. Que se entregue, pernoite.

domingo, 20 de setembro de 2009

Pôr-do-ser

E as lágrimas não mais molhavam sua face. De bruços, molhava o travesseiro, de suor. Sua pele, ignorando riscos, insistia em tornar-se mais e mais quente. Sua mente forçava rendição, e testava sua vontade. A visão, embaçada, conseguia ainda perceber as cores e formas, mas não os detalhes. E foi assim que percebeu, que detalhes são mesmo detalhes, afinal. Sem conseguir ler as pequenas letras minuciosamente escritas a mão, tratou de lembrar o que aquele amontoado de letras realmente queria dizer, e não as palavras que formava.

Decidiu deixar a luz acesa, por mais que não pudesse realmente vê-la. Caso não mais voltasse a abrir os olhos, deixara ali seu último desejo, sua última descoberta, e última mensagem.

O relógio marcava a hora certa, pelos motivos certos. E então, num último suspiro, apagou.

Acordou pela manhã para admirar a beleza de uma luz maior lá fora que, solitária, mas radiante, mostrava que o dia só se torna noite, para que a noite possa virar dia, e possamos assistir a este espetáculo matinal do regresso.

Rubem Alves, Eu, e o amor.

"Gosto da palavra 'amantes'. Amantes são aqueles que se amam. Os amantes, separados pela distância, sentem saudades... Alegram-se com a memória do rosto da pessoa amada." - Rubem Alves

É difícil dizer que se ama, é difícil dizer a um alguém o quanto gostamos dele. Talvez seja pois o amor é algo que não se possui, jamais. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. Quando ele volta, volta com ele a alegria. E vemos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro. É difícil contar a alguém que ele tem livre arbítrio sobre nossa felicidade.




"O apaixonado sofre menos com a morte da pessoa amada que com sua partida para um novo amor. A morte torna eterno o amor. Ela fixa, para sempre, a bela cena. A partida, ao contrário, a destrói." - Rubem Alves

Gostaria de ter certeza do que há após a morte, para saber se concordo ou não com isso... Há momentos nos quais acredito que não preferiria a eternidade solitária do amor perdido para sempre, se possível viver, mesmo em dor, a presença passageira do amor perdido para sempre em vida.